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  A MULHER DEPOIS QUE AMA!!!
 

            (Affonso Romano de Sant´Anna)
 
            
 
            Uma coisa especial ocorre com a mulher depois que ama.
            Reparem, estou dizendo: Depois que ama.
            Não estou me referindo a ela enquanto está no ato do amor.
            Disto se pode falar também, e a literatura a partir do romantismo e depois o cinema, modernamente, já tentaram de várias formas simular na relação amorosa como a mulher suspira, se contorce, desliza as mãos e entreabre a boca do corpo e da alma.
            Mas, quando digo "depois que ama", refiro-me ao estado de graça que a envolve após o gozo ou gozos, e que perdura horas e horas e às vezes dias.
            Fica macia que nem gata aos pés do dono.
            Mais que gata, uma pantera doce e íntima.
            Sua alma fica lisinha, sem qualquer ruga.
            A vida não transcorre mais a contrapelo.
            Desliza...
            Ela tem vontade de conversar com as flores, com os pássaros, com o vento.
            Sobretudo, descobre outro ritmo em sua carne.
            É tempo do adágio, de calma e fruição.
            Neste período, aliás, o tempo pára.
            Em estado de graça ela se desinteressa do calendário.
            O cotidiano já não a oprime.
            É a hora de uma ociosidade amorosa.
            O fato é que a mulher nessa atmosfera sai do trivial, se angeliza e glorificada, pervaga pela casa.
            O homem, animal desatento, às vezes não se dá conta.
            Em geral, nunca se dá conta.
            Ou dá-se conta nos primeiros minutos após o ato de amor,
            e depois se deixa levar pela trivialidade, deixando-a solitária em sua felicidade clandestina.
            Na verdade, ela sobrepaira ao tempo, está adejando em torno do amado, que deveria suspender tudo para sentir desenhar-se em torno de si esse balé de ternura.
            Deveria o homem avisar ao escritório:
            - hoje não posso ir.
            - estou assistindo à reverberação do amor naquela que amo.
            E como isto se assemelha à floração rara de certas plantas.
            Os amados deveriam interromper tudo: seus negócios e almoços e ficarem ali, prostrados, diante da que celebra nela o que ele ajudou a deslanchar.
 
            Já vi algumas mulheres assim.
            Era capaz de pressentir a 115 m que elas estavam levitando de tanto amor que seus amados nelas desataram.
            Há uma coisa grave na mulher que foi ao clímax de si mesma.
            Que não esteja distraído o parceiro ou parceira.
            Ela tem mesmo um perfume diverso das demais.
            É um cio diferente...
            É quando a mulher descerra em si o que tem de visceralmente fêmea, tranqüila que, mais que possuída, possui algo que atingiu raramente.
            As outras mulheres percebem isto e a invejam.
            Os machos farejam e se perturbam.
            É como se estivessem num patamar seguro a se contemplar.
            É quase parecido a quando a mulher vive a maternidade.
            Mas aqui é ainda diferente, porque na maternidade existe algo concreto se movimentando dentro dela.
            Contudo, nessa atmosfera que se segue a uma epifânica sessão de amor, diverso, porque ela está
            acariciando uma imponderável felicidade.
 
            Estou falando de uma coisa que os homens não experimentam assim.
            O gozo masculino é mais pontual e parece se exaurir pouco depois do próprio ato.
            Só os escolhidos, os de alma feminina, vez por outra, o sentem prolongar-se dentro de si.
            Mas em geral, é diferente.
            Terminado o ato, uns até rolam para o lado e dormem como se tivessem tirado um fardo do ombro,
            outros acendem o cigarro, vestem suas ansiedades e voltam ao trabalho.
            É constatável, no entanto, que o homem apaixonado também transmite força, alegria, energia.
            Ele oscila entre Alexandre o Grande e o artista que chegou ao sucesso.!
            Também brilha, mas é diferente.
            E não é disto que estou falando, senão do gozo feminino que não se esgota no gozo e se derrama em gestos e atenções por horas e dias a fio.
            Freud andou várias vezes errando sobre as mulheres e, por exemplo, colocou equivocadamente aquela questão de que a mulher teria inveja do homem por ser este um animal fálico, etc.
            Convenhamos: inveja têm (e deveriam ter) os homens quando prestam atenção no fenômeno que ocorre com as mulheres, que ao serem amadas atingem o luminoso êxtase de si mesmas, como se tivessem rompido uma escala de medição trivial para lá da barreira dos gemidos e amorosos alaridos.
 
            É isso: quando a mulher foi amada e bem amada, ela ingressa nessa atmosfera sagrada, cuja descrição se aproxima daquilo que as santas extáticas descreveram.
            Uma aura de mistérios as envolve.
            E isso, por não ser muito trivial, por não ser nada profano, talvez se assemelhe aos mistérios gozosos de que muitos místicos falaram.